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MARIA LUCIA VICTOR
Queria que você soubesse nessa tarde que se
esvai para os lados do poente dando lugar à lua,
que estou pensando em você.
Recordo penumbras entre as quais caminhei
até encontrar o abraço seguro que me sustentou,
os lábios que cingiram os meus, as sábias mãos
que me afagaram percorrendo meus caminhos.
Relembro deslumbramentos, cintilações,
descobertas, sincronias, mágicos sentimentos,
sensações. Tudo estava tão perto. Tudo agora
parece tão longe.
Então, nesse instante onde a tarde é
lusco-fusco me confundo com a incerteza das
cores. Indago o que sou para você e, de repente,
percebo que nada sei. Nem de meus limites. Nem
de meus alcances. Nem de minhas esperanças. Nem
de meus prazeres. Nem de meus pesares. Torno-me
humilde. Abissal. Perco todas as certezas.
Vacilo. Indago-me com perguntas que ficam sem
resposta.
Em seguida, porém, percebo que as incertas
coisas da paixão que tanto penalizam são como
ato de fé: elas são. Existem.
Inquestionavelmente. São inexplicáveis à luz da
lógica. Bastam-se.
Assim, vou lembrando de você nessa tarde já
em começos de luar. Pensando, me alegro. Com uma
alegria estranha que às vezes volta a ser
tristeza ou nostalgia, mas que flui do saber que
você está aí.Aonde, não sei. Entre nós essa
considerável e penosa distância. Mas sei que
está completo: do riso ao olhar.
Agora vem como brisa em pôr-do-sol a saudade
funda que é essa falta de não se ter ao alcance
dos olhos e das mãos.Vontade desesperada de
olhar, de tocar e não poder. Nesse fluir flutuo
como pássaro de arribação sabendo que você
existe em algum recanto longínquo onde precisava
encontrá-lo. Fico, então, em estado de amor
puro. Cristalizada em saudade. Apenas me
aconchegando em hipotético bem-querer. E
gostaria tanto que você soubesse disso nessa
tarde que descamba no poente para morrer nalgum
recanto do luar que já se anuncia.
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